quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Vinho Verde em época de manifestos II


Entraram até ontem 6581 manifestos, representando cerca de 17.000 toneladas de uva, um aumento de 12% tendo em consideração os manifestos dos mesmos produtores no ano passado. É ainda cedo para antever o final da vindima pois só nos últimos dias entram as declarações dos principais produtores, adegas e vinificadores.

O processo de recepção das declarações de Colheita e Produção deste ano tem algumas características especiais, que aproveito para recordar.

BRANCOS E TINTOS - dado que o cadastro da vinha se encontra finalmente ligado com a DRAPN e o IVV, estamos a receber informação detalhada das parcelas com indicação da cor nas castas. Há pois 7000 produtores cuja cor já está a ser controlada. À medida que o cadastro for sendo actualizado, este controle será nos próximos anos estendido a todos os viticultores. Muitos produtores viram-se obrigados a fazer a actualização dos respectivos cadastros. É importante ser tolerante pois a DRAPN está a fazer um esforço mas dificilmente consegue receber todos os produtores de imediato.

CORRECÇÃO DE ÁREAS -a determinação das áreas cadastradas para cada produtor é feita pelo Ministério da Agricultura. A CVRVV recebe o cadastro do Ministério por via informática e aplica-o aos manifestos, nomeadamente para efeito de controle do rendimento/hectare. Ora, há casos em que o produtor não concorda com a área que lhe aparece no sistema informático da CVRVV. Deve então apresentar um pedido que dará origem a um esclarecimento. Dos pedidos recebidos, detectamos duas situações:
  • produtores cuja área que está registada no sistema da CVRVV coincide com a registada na DRAPN mas que o produtor entende estar errada - neste caso, o viticultor deve dirigir-se à DRAPN para a corrigir;
  • produtores cuja área que está registada no sistema da CVRVV não coincide com a registada na DRAPN - neste caso, trata-se de um problema informático de sincronismo com o Instituto da Vinha e do Vinho e a CVRVV apresenta um pedido de correcção naquele instituto.
RENDIMENTO/HECTARE - deram entrada na CVRVV já mais de 50 pedidos de aumento do rendimento por hectare. Nos termos do Estatuto da região, o rendimento por hectare é limitado a 10.600 quilogramas de uva, sendo que pode ascender aos 13.500 quilogramas mediante regras a estabelecer pelo Conselho Geral da CVRVV. O Conselho foi convocado para analisar este assunto no dia 16 de Setembro e a opinião maioritária dos presentes ( unânime na produção ) foi no sentido de que não faria sentido aumentar já este limite, o que deveria ser feito com a devida ponderação para 2011.

RESENDE - a DRAPN está a actualizar o cadastro de Resende. É um processo célere feito por um método novo, pelo que teremos resultados em poucas semanas.

PRAZO - tendo em consideração a natural demora no atendimento dos produtores para actualização de cadastro, estamos a prolongar até 31/12 o prazo para entrega das DCP's.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Receber é sempre bom

Os painéis solares instalados na sede da Comissão de Viticultura no Porto começaram a produzir energia. Hoje chegou a primeira nota de crédito: 214,00 euros.

Já é alguma coisa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Boa viagem Alfredo

O Alfredo Hervias y Mendizabal era um jornalista grande dos vinhos e gastronomia. Iniciou-se no Independente, colaborou com a Revista de Vinhos e recentemente estava radicado no Brasil.

Já não me lembro quando o conheci. Não esqueço porém os jantares animados, a boa disposição, a ironia inteligente e sobretudo o bom coração que tinha. Para com os amigos, para com a família. Num mundo de quezílias menores, o Alfredo semeou amizades. Esta semana, o coração levou-o.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Vinho Verde: vendas em Setembro


( Clique na imagem para aumentar )

Já merecíamos boas notícias após um ano destes ! As vendas de branco estão ligeiramente acima do ano passado na mesma data. São 617.000 litros a mais que correspondem a um aumento de 1,7% em volume. Importa reter ( ver artigos anteriores ) que este crescimento é fortemente ancorado nas exportações, que apresentam valores admiráveis, contra um mercado nacional que não cresce.

Fracas estão as vendas de tinto e claramente estamos num momento em que é preciso repensar toda a estratégia do Verde tinto. Importa também que os viticultores estudem estes números antes de plantarem novas vinhas. Claramente não há mercado para tanto Vinho Verde tinto, salvo se dermos uma volta no produto ou na comunicação.

Finalmente o rosado cresce. O Vinho Verde rosé ganha mercado num segmento, os rosés, que já de si é limitado. Nos próximos dias vou publicar um artigo sobre este vinho pois consegui estatísticas interessantes de fora.


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vinho Verde: stocks em Setembro

Este mapa corresponde ao último stock pré-vindima. O stock é confortável, embora longe dos excedentes que tivemos no início da década. Estamos bem no branco, juntificando-se a manutenção ( em alguns casos ligeira descida ) que tivemos no preço da uva. Claramente, com este stock e a produção de 2010, podemos apontar para um ano estável em 2011. Noto que vários vinificadores irão apresentar nesta vindima valores inferiores aos do ano passado, pelo que não é de esperar que o anunciado aumento de produção se estenda a todas as empresas e adegas.

Da nossa análise preocupante sim é o stock de tinto. Ao contrário do branco, as vendas de tinto são muito regionalizadas e sazonais. Dependente pois de um mercado nacional onde não há boas notícias, o stock de tinto não cresce. Há dias dizia-me um produtor que estamos a "apanhar" agora com as ilusões de quem achava que o tinto era muito bem pago e reconverteu para tinto no início da década. É possível. E porém irónico: os Verdes tintos estão melhores que nunca, sem perderem a personalidade de vinhos únicos, mas são bebíveis, até desafiantes. Veja aqui as notas da Jancis Robinson sobre o Afros Vinhão.

Por último, o stock de mosto branco ( que se deve adicionar ao do vinho ) não representa um excedente mas sim a tendência de várias empresas da região de passarem a usar este produto como matéria prima.

No texto de amanhã coloco as vendas.

domingo, 17 de outubro de 2010

Os Vinhos Verdes e 2011: reflexão

Fiquei sem palavras quando vi uva branca em regiões nossas vizinhas a ser paga a 15, e a 17 cêntimos o quilo. às vezes a menos. Por mil dificuldades que tenhamos, o valor pago nos Vinhos Verdes, acima do dobro deste, é um conforto que nos dá a competitividade da região.

2011 apresenta-se claramente como o ano mais difícil da nossa geração. Alguns apontamentos do que se vai vendo e analisando:

1. O mercado nacional vai desvalorizar-se. Primeiro motivo, a baixa de poder de compra. Segundo, a força das grandes superfícies a esmagar os fornecedores já sem margem de manobra. São estes que vão suportar o aumento do IVA e são estes que vão ser encostados à parede para fazer promoções e descontos. De cada vez que um produtor recusar, outro se perfilará para vender mais barato. Terceiro, há regiões que estão com stocks muito elevados e dos quais se vão libertar à custa do preço. Não sendo aqui demasiado concreto, porém há outras regiões cujos tempos áureos se esfumam em stocks elevados, em investimentos calculados para crescimentos infindos e que, à falta de melhor, vão vender barato. 2011 será o ano do vinho de 1 Euro ?

2. A exportação vai ajudar-nos. Saibamos apenas ter cabeça. O Vinho Verde está num momento absolutamente ímpar nas exportações. Estamos a crescer há uma década em vários mercados e não me surpreenderia se em 2011 ou em 2012 o mais tardar, as exportações atingissem 20% das nossas vendas. Tenhamos porém juízo quanto aos preços. O Vinho Verde tem de ser "valorizado" no mercado e não "escoado" para o mercado. É importante recordar o que se passou no mercado Inglês nos anos 80. Mas claramente é a exportação que vai puxar pelas vendas nos próximos anos.

3 A redução do crédito será um problema. Ao contrário da política demagógica que se apraz em criticar os bancos, ter um sector financeiro sólido é essencial para o mercado. O crédito, o crédito facilitado e barato é uma ferramenta essencial para o empresário que gera riqueza e cria postos de trabalho. Sem crédito, teremos colegas que têm bons vinhos, boas marcas, bons clientes mas que não conseguem funcionar, do mesmo modo que um automóvel desportivo de nada serve, mesmo com o depósito cheio, se não tiver bateria ou óleo. O "aperto" do crédito será um dos problemas do ano. A ver como se resolve. Não há solução milagrosa, não.

E porém, vamos entrar em 2011 com grandes vinhos. É unânime a opinião de que esta vindima foi de óptima qualidade. Vamos a eles pois !

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Vinho Verde em época de manifestos !


Se o caro leitor não está envolvido na produção e venda de vinho, certamente esta é uma época que nunca se cruzou consigo: a época dos manifestos ! Todos os anos, após a vindima, e enquanto o vinho se prepara, os viticultores e produtores de todo o país ( de toda a Europa realmente ) fazem uma declaração de rendimento na qual inscrevem as uvas e vinhos produzidos, bem como actualizam o stock de vinhos que transportam das vindimas anteriores.

Envolvendo cerca de 25.000 produtores, o manifesto dos Vinhos Verdes ( realmente designa-se por DCP - Declaração de Colheita e Produção ) é o maior do país, uma operação inteiramente informatizada em 50 postos de recepção espalhados pela região. Os produtores ainda não podem fazer a declaração a partir das suas casas, algo que nos próximos anos farão de forma gradual.

O manifesto deste ano terá algumas novidades que trarão dores de cabeça aos postos de atendimento e aos produtores mas que irão aumentar muito o rigor na certificação da rastreabilidade, a principal das quais é que será feito por via informática o controlo dos rendimentos/hectare das produções de uva branca e tinta separadamente.

Os produtores receberam em suas casas a habitual carta que lhes indica o potencial de produção. Para mais de 10.000 produtores, esta indica já separadamente o potencial de branco e tinto, conforme se encontra registado no Ministério da Agricultura. Ora, a validação dos rendimentos por hectare será feita tendo em conta precisamente estas áreas.

Esperamos em 2011 poder estender este controlo a todos os viticultores e iniciar o controlo, também informático das castas, as quais serão indicadas para cada produtor na carta anual.

Há também alguns produtores cuja DCP ficará pendente de actualização das suas áreas: trata-se de cerca de 150 produtores com mais de 5 hectares em produção mas cujos cadastros de vinha estavam desactualizados. Estes foram contactados individualmente.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um pouco de Rioja no meio de nós !


Reunimos há algum tempo com os nossos colegas da Rioja e mais tarde da Ribeira del Duero para conhecermos o modo como estes acompanham a vindima para se assegurarem da rastreabilidade das uvas e mostos. São regiões diferentes da nossa, pelo que há métodos que podem resultar numa região mas não tão bem noutra.

Há cerca de semana e meia, estamos a aplicar na nossa região aquele que é o principal ( em alguns casos único ) meio de controle da rastreabilidade no terreno dos nossos congéneres espanhóis: equipas de controle a assistir à recepção de uvas em cada adega. Anualmente cada uma destas regiões contrata mais de uma centena de "vedores" que assentam arraiais em cada uma das adegas e ali ficam ao longo de toda a vindima registando as entradas, controlando a sua origem e a qualidade das uvas.

Os produtores mais pequenos não se dão conta, mas em todas as grandes adegas da região está por estes dias uma equipa da CVRVV acompanhando a recepção das uvas.

Mais do que em 2009, neste ano o Vinho Verde é destacadamente a região que melhor paga as uvas brancas em Portugal. A duas horas de viagem da nossa região é perfeitamente comum pagarem-se uvas a 20 cêntimos o quilo ou menos. Bem menos.

É por isso essencial que este vinhos seja de facto único no mundo assegurando que é elaborado a partir das melhores uvas produzidas no Minho.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

O cadastro vitícola dos Vinhos Verdes

O cadastro vitícola é uma ferramenta essencial para a certificação de origem de um vinho em qualquer região demarcada. No cadastro encontra-se a informação de base da estrutura produtiva: que área de vinha está plantada, onde se localiza, quais os proprietários e exploradores de cada vinha e informação muito detalhada como seja a identificação das castas de vinha que se encontram em produção em cada parcela.

É um instrumento essencial mas também complexo. Sabendo-se que nos Vinhos Verdes há mais de 25.000 produtores e mais de 250.000 parcelas de vinha, já se calcula a extensão da informação.

Após uma longa história sem sempre alegre (1), temos este ano uma óptima notícia para a região: o cadastro da CVRVV que servirá por base à validação das declarações de produção ( DCP ) desta vindima já se encontra inteiramente sincronizado com o do Ministério da Agricultura gerido pelo Instituto da Vinha e do Vinho. Quer isto dizer que o produtor se pode dirigir a qualquer momento aos serviços do Ministério para actualizar as suas fichas e os dados actualizados serão utilizados pela CVRVV a partir da manhã do dia seguinte.

Temos agora pela frente o desafio de actualizar em permanência o cadastro, certos de que os produtores deixam de ter de andar com papeis às costas. O cadastro utilizado para a certificação é baseado em 100% em dados do Ministério da Agricultura, aqui e ali complementados com dados da CVRVV. Cerca de metade dos produtores inscritos e respectivas áreas têm fichas muito actualizadas, feitas com base nas operações dos últimos cinco anos e confirmadas por fotografia aérea. Há porém um número ainda significativo de parcelas que estão registadas com base nas antigas fichas do Ministério que são documentos credíveis, mas cuja qualidade e rigor pode agora ser melhorada.

Gizamos pois, com os serviços regionais do Ministério ( DRAPN ) e o IVV um plano para a próxima actualização do cadastro. Até Novembro, serão actualizados os poucos produtores que faltavam com mais de 5 hectares - são cerca de 160, - e será dada uma atenção especial a alguns concelhos como Cinfães e Resende onde há muito trabalho de actualização por fazer. Após a vindima, teremos um ano para trabalhar, com o objectivo para 2011 de que todos os produtores com mais de 1 hectare tenham o cadastro actualizado.

Entretanto já este ano as cartas que habitualmente lhes indicam a área em produção cadastrada incluem também, para a grande maioria, a percentagem de uvas tintas e brancas. Confio que para o próximo ano possamos começar a tratar cada casta separadamente. É que, com este cadastro em funcionamento, gradualmente teremos o controle informatizado não só das cores mas também das castas em produção.

Falta muito para que o cadastro esteja a 100% e é certo que é um instrumento vivo, que evolui a cada dia, mas finalmente a luz já é forte ao fundo do túnel e o que nos falta é apenas tenacidade e algum tempo.

As próximas semanas vão ser de alguma pressão nos serviços da DRAPN, pois centenas de produtores irão pedir a actualização dos respectivos cadastros. Convém mesmo não deixar para a última hora !

(1) guardo para mim vários dos episódios que nos levaram a este feliz desfecho. Dezenas de reuniões, deslocações, cartas e mails. Episódios de desprezo pelos produtores, de desperdício de fundos públicos, de falta de solidariedade entre a administração central e a desconcentrada. Mas também de vivo empenho, não só da CVRVV mas também das equipas da DRAPN e do IVV para se se encontrassem soluções razoáveis. Guardo para mim, mas registei.