quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

João António Cerdeira






Na guerras do século XIX e anteriores, uma das pessoas mais importantes num exército era o porta estandarte. De tal modo que havia um cuidadoso plano de substituição para o caso de o porta estandarte cair e ser logo substituído.

O motivo não tinha nada de formal como têm os porta estandartes hoje nas cerimónias. É que, na brutal confusão da batalha, todos procuravam o porta estandarte pois ele indicava o lado em que estavam e o caminho que deviam seguir. Ele indicava o caminho.

Quando iniciei esta página, já lá vão uns anos, nunca me passou pela cabeça registar eventos como este.

O vinho é de facto um negócio de pessoas e do território. Neste caso, de alguém que foi tão longe, que nos abriu tantas portas, que nos mostrou que tanto é possível mas que soube manter uma admirável humanidade, uma enorme descrição.

Vale a pena atentar no percurso de quem nos deixa para que cada um de nós possa ser, ao menos um pouco, porta estandarte dos valores que ele defendia.

Como li hoje na página do Soalheiro "o sonho continua".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Viticultura: uma mudança de paradigma legal

Estão abertas candidaturas para a distribuição de 1449 hectares de licenças de plantação de vinha. As candidaturas devem dar entrada durante o mês de Março. Leia o Despacho Normativo n.º 5/2015, de 11 de Fevereiro.

A distribuição de licenças de plantio seria só por si importante mas esta é especialmente relevante porque é a última do regime legal actual. Quem pretenda aumentar a área de vinha nos próximos anos tem mesmo de se apresentar a esta distribuição de direitos.

UM NOVO REGIME A PARTIR DE 2016

A vinha é uma cultura condicionada, o plantio carece de autorização do Estado. Não vou debater aqui os fundamentos do condicionamento ( de que discordo ). É o que é.

O quadro legal Europeu, com aplicação directa a Portugal vai alterar-se profundamente a partir de Janeiro de 2016 por efeito do Reg. n.º 1308/2013, de 22 de Dezembro.

Principais ideias:

  • um novo regime em vigor até 2030
  • os direitos em carteira a 31/12 serão convertidos - a pedido do detentor pelas novas "autorizações de plantação"; este pedido deve ser apresentado entre 1/9/2015 e 31/12/2015;
  • as novas autorizações de plantação são válidas por 3 anos não prorrogáveis; estas autorizações não podem ser transferidas para terceiros - o mecanismo actual de transferência cessa;
  • anualmente o Estado atribuirá novas autorizações para uma área não superior a 1% da área do país; as regiões que o pretendam podem limitar as novas autorizações na sua área a um valor inferior a este.

São pois alterações de fundo que o viticutior tem de considerar rapidamente para planear o futuro, nomeadamente caso tenha hoje direitos em carteira ( tem de os usar em breve ) ou especialmente se prevê nos próximos anos necessitar de aumentar a área de vinha. É que a partir de 2016 deixa de poder comprar direitos. Desta forma, das duas uma: ou vai à distribuição anual de 1% e é contemplado, ou então tem de adquirir uma exploração já com direitos.

Vários pontos estão por determinar e vão ser clarificados ns próximos meses. Um destes é o da possibilidade que há de cada região limitar as autorizações que podem ser introduzidas na sua área. Creio que para o Vinho Verde a opção é clara: não queremos que os nossos produtores sejam limitados nas candidaturas que pretendam apresentar. Podém admito que o Douro e o Alentejo possam ter uma posição diferente, solicitando a limitação. Sendo assim, o "saldo" é repartido por todo o país, o que - aritmeticamente - quer dizer que os nosso produtores poderão ter acesso aos direitos de que necessitam.

Um outro ponto a considerar é que as vinhas a plantar ao abrigo das autorizações não serão, em principio, apoiadas pelo Vitis. Algo a ver mas que é preocupante.


Nota: usei neste texto material emitido pelo IVV e distribuído ao Conselho Consultivo. Caso pretenda receber o original lá distribuído f.f. de me contactar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Uma nova lei quadro das Regiões Demarcadas


Vamos ter, num futuro próximo, uma nova lei quadro das regiões demarcadas que substituirá o actual Decreto-lei nº 212/2004 de 17 de Agosto. Para a maior parte dos produtores, este anúncio é uma surpresa. Aliás os produtores não se dão conta sequer de que há uma lei quadro das regiões demarcadas.

Esta constatação dá-nos um bom ponto de partida para a reflexão: é que a lei que temos não é má e verdadeiramente não incomoda nenhuma empresa no seu funcionamento do dia a dia, o qual é preenchido por muitas outras preocupações.

Porque a mudamos então ? pelo mesmo motivo que passamos de segunda para terceira velocidade no carro: é que a lei actual cumpriu bem a sua função mas, para evoluirmos, precisamos de avançar numa série de aspectos.

Este é o primeiro de alguns textos que pubicarei sobre a reforma.

Neste caso, como em todos os outros, é meu entender que o Estado não deve regulamentar tudo até ao tamanho das peúgas. Pelo contrário, deve identificar aquilo em que é essencial a intervenção pública e, nestes casos ser muito competente e detalhado, deixando para a sociedade civil tudo o que esteja fora deste núcleo central.

Para para uma lei quadro das regiões, diria que o papel do Estado é importante em dois assuntos:
  • garantir uma certificação rigorosa e transparente;
  • garantir uma eficaz e leal representação do interprofissional - o primado do interprofissional.

UMA CERTIFICAÇÃO RIGOROSA E TRANSPARENTE

Aqui o ponto é aquele que já estava fixado em 2004: garantir que as entidades certificadoras cumpram as normas internacionais de qualidade. Em 2004 Portugal foi pioneiro, sujeitando as entidades certificadoras à norma 45011 e os laboratórios à 17025. Hoje a OCM alargou esta obrigação ao nível auropeu.

Infelizmente, sempre melhor a legislar do que a fazer cumprir leis, o Estado Português nunca fez cumprir esta norma. Há que a refirmar e fazer cumprir.

Manifestamnte não há que ir mais longe, exigindo obrigações burocráticas, estruturas fixas que só acrescem custos para as empresas e que não trazem valor.

Nem há que exigir fusões de CVR's. O mero facto de se fazer cumprir a lei que obriga ao cumprimento de normas de qualidade se encarrega deste assunto.

Há, em abono da verdade,  um importante serviço que o IVV poderia prestar ao sector: a publicação anual de um relatório da certificação, do qual constasse não só a parte estatística já conhecida mas, mais ambicioso, a análise comparativa dos serviços de certificação: por exemplo a comparação dos custos de certificação em todo o país, a comparação dos serviços prestados, prazos de entrega, Enfim, todos aqueles elementos do servço que são tão importantes para as empresas e que podem gerar concorrência comparativa entre as entidades certificadoras. Não é concorrência directa, claro pois um vinho por exemplo do Alentejo terá sempre de ser certificado pela CVRA. Porém tal relatório permitiria confrontar cada entidade certificadora com os serviços equivalentes no resto do país e assim servir de forte impulso para a melhora: como responderia um Presidente de uma CVR quando confrontado com os custos elevados do seu serviço ?

Esta proposta implica trabalho e nem sequer é custosa. Não carece de lei e é um optimo serviço que o IVV poderia prestar ao vinho.

UMA EFICAZ E LEAL REPRESENTAÇÃO DO INTERPROFISSIONAL

Se realmente quer ter uma intervenção útil, o Estado deve contribuir para uma melhor definição do interprofissional, ou seja: quem é que está representado no Conselho Geral e em que termos. Se conseguir isto - e não é pouco - o Estado pode e deve deixar precisamente nas mãos desse interprofissional a gestão da entidade e das suas competências.

Por exemplo, não faz sentido a lei determinar se uma entidade certificadora pode ou não fazer marketing, formação, investigação, turismo. Devem ser os prodoutores e comerciantes de cada região a decidir quais são os serviços de que necessitam e não vem mal ao mundo que uma região pretenda serviços na área do turismo e outra pretenda na área da formação e uma terceira que opte por uma entidade certificadora low cost que se limita ao núcleo central da certificação. Concorrência e liberdade é isto mesmo.

Do mesmo modo, não é preciso ser o Estado todo poderoso a decidir que o órgão executivo deve ter 3 ou 5 ou 7 membros. Terá os que o interprofissional dessa região entender necessários.

O MÉTODO DA REFORMA

Não há parto mais longo que este. Fala-se da reforma pelo menos desde 2011. Seja como for, uma década de vida da lei não é tempo demais. A lei anterior à actual era a 8/85, durou bem mais. Tanto aquela como a actual Dl 212/2004 são boas leis, podemos e devemos reforma-las serenamente.

A reforma começa bem, com um questionário às empresas e associaçes do sector. Segue-se a análise da lei e dos resultados do questionário por grupos técnicos.


Ficou por explicar porque é que o Douro é excluído do questionáriomasisso são contas de outro Rosário.

Este assunto é importante e o ano ( eleitoral ) torna-o mais delicado. Confio que haja o bom senso de fazer deste processo uma reflexão sobre como agregar valor ao sector e não o habitual corridinho das queixas de que todos os males do mundo radicam nas CVR's. Que seja um debate aberto ao sector e sobretudo transparente, isento das decisões tomadas em petit comité.

Nota: em próximos textos abordarei temas que se filiam aqui como sejam o da definição produção/comércio, a sustentabilidade económica das entidades certificadoras, o marketing.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Vinho Verde: vendas em 2014

São bons, sem excepção, os nossos mapas de vendas em 2014.

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O branco está com vendas muito sólidas, suportadas sobretudo na exportação, como veremos num texto a publicar dentro de dias. Estamos a crescer em todos os principais mercados de exportação.

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O segundo quadro mostra-nos o tinto e o rosado. O crescimento do rosado vem de há vários anos, é muito sólido e ainda não parece ter encontrado um tecto de resistência. Há uma força grande seja das grandes locomotivas da regão, seja de pequenos produtores, que impulsiona muito este produto. É justo dizer que temos condições excelentes para produzir grandes rosados. Curiosamente nos últimos anos o rosado deixou de asfixiar tinto, que cresce, moderadamente mas cresce.

São produtos completamente diferentes, com diferentes canais, mercados, posicionamento e até diferente sazonalidade.

Muito embora não possa divulgar dados por marca, note que o crescimento do tinto não se está a dar em produtos inovadores que fogem ao perfil do tinto e que vêm sendo muito bem pontuados pela imprensa. Estes vinhos são interessantes sem dúvida mas têm ainda volumes pequenos que não influenciam um mercado de 5,3M litros. O crescimento de vendas dá-se pois em marcas de grande volume e note que temos uma marca com 1M litros, duas na casa do meio milhão e várias nos 200/300.000 litros.

O terceiro quadro, em baixo, apresenta os brancos de casta e o IG Minho.
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O loureiro vai bem. Tem as vendas sólidas, está a ser replantado intensamente nas reconversões de vinha. É uma casta fabulosa e representa um volume de negócio já bastante relevante. Também para o viticultor é uma casta interessante, produz bem, é bem remunerada.

De seguida o Alvarinho, aqui representado pelo DO e pelo IG em linhas separadas. O Alvarinho aumenta vendas nos dois segmentos. Há um efeito de maturidade comercial da casta, que é hoje reconhecida e valorizada como "marca" pelo cliente, há o efeito positivo do debate Alvarinho que decorreu ao longo do ano e há, no IG, o lançamento de vários novos vinhos sobretudo de pequenos produtores.

Num quadro em que tudo são notícias positivas, um ponto amerecer reflexão é a linha representativa do IG Minho.Tal como em mapas anteriores, considerei apenas o 0,75 para eliminar o efeito de algum granel que circula na região. E as vendas têm um comportamento admirável. O que está a dar corpo a este negócio são sem dúvida nenhuma os lotes com Alvarinho, sobretudo os Loureiro Alvarinho. Note que hoje este tipo de lote é comercializado por empresas de toda a região, de Monção/Melgaço e de fora.

São pois bons mapas, a região atravessa robusta um periodo de enorme dificuldade no mercado nacional.

Nos próximos dias publico os mapas de exportação.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Vinho Verde: stocks a 31/12

Embora com alguns dias de atraso, creio que vale a pena analisar em detalhe os stocks a 31 de Dezembro. Aproveitei pois para expandir a análise aos últimos cinco anos.

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Uma primeira leitura que salta logo à vista é que há cada vez menos branco em stock. Note que não basta analisar a linha verde, pois há que lhe somar o mosto branco, na linha azul. Seja como for, a situação não é de facto famosa. Em baixo, uma tabela que fiz para facilitar a leitura e que nos permite comparar o stock de branco + mosto a 31/12 de cada ano e as vendas de cada ano de VV Branco+Alvarinho+Loureiro. Em ambos os casos ano civil, valores em litros. A terceira linha é o cálculo da taxa de cobertura. A tabela não é de rigor absoluto pois o stock a 31/12 de cada ano é para ser usado no ano seguinte e haveria que considerar as desclassificações para IG. Seja como for já nos dá uma boa ideia de tendência.,


E a tendência é clara. No início do periodo, o stock excede em 77% as necessidades e no fim já só excede em 35%. Para agravar, note que o stock conta sempre com vinho que está repartido na produção em pequenos armazéns que não é economicamente razoável ir buscar.




Já agora um segundo efeito muito curioso, que já mencionei num texto anterior e que se pode ver no mapa seguinte. É que o antigo mercado de granel que existia na pequena produção está a esgotar-se.


Ou seja: assim como há uma enorme concentração no destino do granel, hoje com dois compradores que têm uma quota de mercado enorme, há também uma crescente concentração na produção. Neste momento quem queira adquirir 300 ou 400.000 litros só tem 5/6 fornecedores possíveis. Aquele enorme manancial de granel que havia na produção e que motivava várias empresas para que andassem a "levantar vinho na produção" hoje tem muito pouco significado.

É evidente que várias causas concorreram para que se chegasse a este cenário de escassez, não vale a pena lamentar agora,os tempos são outros e também o são os instrumentos técnicos e legais.

Para futuro atrevo-me a tirar três apontamentos:
  • o primeiro é que o aprovisionamento de matéria prima não é garantido, pelo que qualquer empresa tem de o considerar como um ponto estratégico e tem de ter respostas para assegurar o aprovisionamento necessário para os seus projectos comerciais; acabou o tempo de quem se dedique ao mercado de engarrafados, confiante que encontrará sempre a matéria prima necessária a bom preço; isto é mau para a região pois dificulta a nossa capacidade para captar engarrafadores de fora que se iteressem no Vinho Verde. mas é o que é;
  • segundo é que há pouco e cada vez menos espaço para modelos de negócio de baixo preço. O granel de VV branco é o mais caro do país e bem mais caro do que o granel branco de mesa. Isto seria optimo se vendessemos o branco mais caro do país, mas não vendemos. Os projectos com marcas de base de gama têm e terão cada vez mais dificuldade;
  • o terceiro é a evolução do importante sector cooperativo da região. É que temos algumas cooperativas com instalações excelentes mas com um volume de matéria prima muito aquém do possível. E, como sabemos, as cooperativas sofrem nos anos grandes, porque recebem toda a matéria prima e sofrem nos anos curtos, pois escapam-se as uvas.
O mapa de socks a 31/12 motiva pois bastante preocupação. Relaxe, o próximo texto será sobre o mapa de vendas e esse é uma sequência de otimas notícias !