quarta-feira, 4 de abril de 2018

Três anos de acordo Alvarinho


Tenho no computador uma imensa pasta "Alvarinho" na qual fui guardando tudo o que se referia ao acordo. Contém 450 ficheiros, 36 sub-pastas e mais de 400MB de informação.

Agora que se comemoram três anos desde a data em que o acordo foi assinado, fui rever aquela documentação, centenas de fotos, documentos. tanta coisa, tanta história que um dia hei-de por em ordem.

Adiando as questões políticas e as polémicas que sempre aqueceram este debate e que nunca abordei nesta página, proponho aqui uma breve análise de dados disponíveis.

(nota: usarei MM como abreviatura de Monção e Melgaço )

RECORDEMOS O QUE SE ACORDOU

O acordo assinado no início de 2015 tem 9 pontos que aqui simplifico para rápida leitura:

  • foi criado um selo de garantia específico para os vinhos da sub-região de Monção e Melgaço;
  • foi permitido que se pudessem fazer lotes de Alvarinho com outras castas, abrindo aos produtores de MM a possibilidade de comprarem a sul ( por ex. Loureiro ou Trajadura ) e aos restantes a possibilidade de comprarem Alvarinho em MM. 
  • estabeleceu-se que a designação da casta Alvarinho só poderia ser usada em lotes onde esta estivesse com um mínimo de 30%
  • estabeleceu-se que se manteria a exclusividade de Monção e Melgaço na produção de Vinho Verde Alvarinho até 2021 no mínimo;
  • foi lançado um plano de investimento de 3M€ para afirmação da marca"Monção e Melgaço, a origem do Alvarinho" exclusiva para os vinhos desta sub-região.
O acordo deu origem a nova legislação e ao lançamento do plano de investimentos.

OS RECEIOS

Não menosprezo a boa fé de quem, à data, alterava para os riscos. Sendo que o maior de todos seria o de haver um plantio generalizado de Alvarinho na região, assim diluindo a oferta de Monção e Melgaço e fazendo baixar o preço.

No fundo este era um medo estranho pois subjacente a ele estava a ideia de que, em mercado aberto, os produtores de Monção Melgaço não teriam músculo comercial ou não teriam vinhos capazes de concorrer. Argumentos incompreensíveis pois a sub-região tem empresas fortes e vinhos admiráveis.

Clique na imagem para aumentar. valores em litros.


O QUE JÁ SABEMOS

Três anos não são uma vida mas já é tempo suficiente para fazermos uma primeira observação. E o que registamos é o seguinte:

  • está em uso generalizado o selo de garantia criado para a sub-região; é a única sub-região em Portugal com um selo próprio;
  • mantém-se muito forte a viticultura em Monção e Melgaço, aliás com novos planos de investimento. A Adega de Monção, por exemplo, acaba de contratar um plano de mais de 300.000,00 euros de renovação da vinha e vários outros produtores estão a investir, Não há qualquer sinal de crise na viticultura motivado por alterações no mercado;
  • o plantio de Alvarinho fora da sub-região mantém-se em níveis baixíssimos. Nas novas vinhas há sempre um pouco de Alvarinho mas a esmagadora maioria da área é Loureiro e Arinto. E é assim por uma razão simples que é a produtividade. Confrontada com um problema de escassez na oferta, a região a sul de Monção e Melgaço está a investir em produtividade e não na especificidade que lhe oferece o alvarinho;
  • a permissão dos lotes de Alvarinho com outras castas teve efeitos muito interessantes. desde logo o aparecimento de novos vinhos que antes estavam impedidos: o Loureiro-Alvarinho mas também o Avesso Alvarinho. E depois a origem destes vinhos. É que há vários produtores em MM a comprar intensamente Loureiro e Trajadura a sul, do mesmo modo que há a sul quem vá comprar Alvarinho em MM. Fenómeno curioso: há produtores de MM a comprar alvarinho a sul...( para usar sem sub-região, claro ).
  • a obrigatoriedade de um lote mínimo de 30% veio substituir a regra antiga em que era possível mencionar a designação da casta tendo apenas 1% no lote. Gerou negócio e valorizou a casta;
  • não há qualquer sinal de baixa de preços no ponto de venda, embora se note aqui - e carece de reflexão - que são operadores da sub-região que colocam no mercado os Alvarinhos de preço mais competitivo;
  • e o mercado deu sinais absolutamente surpreendentes:
    • o Vinho Verde Alvarinho ( exclusivo de Monção Melgaço ) aumenta as vendas em 32% 
    • o lote Alvarinho Trajadura aumenta 17%
    • o lote Alvarinho Loureiro começa do zero e representa já 1 milhão de litros/ano.
  • a campanha promocional está em curso e apresenta resultados. É gerida pela CVRVV mediante interacção permanente com os produtores. As primeiras revistas começam a considerar MM como uma categoria autónoma do Vinho Verde. Gradualmente veremos isso acontecer noutros canais.

EM CONCLUSÃO

Como escrevi acima, três anos é só o início. Porem os dados de que dispomos, os dados objectivos, são no sentido de que se estão a desenvolver negócios muito estáveis, com um potencial de crescimento fabuloso e, surpresa, quem está a liderar estes negócios no Alvarinho é Monção e Melgaço.

Admito que não é preciso fazer muito esforço para se perceber que as grandes linhas de evolução se estão a definir: o Alvarinho Trajadura é solidamente património comercial da sub-região; idem claramente para o Alvarinho 100%; pelo contrário, no Loureiro-Alvarinho estou convencido que veremos propostas cada vez mais competitivas a aparecer no resto da região.

Vamos acompanhando, em diálogo com os produtores, fazendo todas as adaptações que se mostrem necessárias.

Foram três anos surpreendentes, Venham os próximos !




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